quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A CIGARRA E A FORMIGA (Joelmir Beting)


     Concordar ou discordar do conteúdo do texto a seguir é privilégio de cada um. Refletir sobre ele é uma necessidade e um obrigação cidadã.

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     De fora para dentro, o capital volátil reaparece e o capital produtivo desacelera. Falam os números do primeiro trimestre, divulgados quinta-feira. Mas é preciso interpretar o que os números estão falando para não se tirar conclusões desconectadas nem fazer projeções furadas. O capital volátil, por semântica, é de caráter especulativo e/ou transitório. Entra e sai do País como quem, fora de hábito, entra e sai da ducha fria: sempre correndo. Acionado por bancos e fundos, ele é movido a risco-país, sinalizador terceirizado de qualidade duvidosa. Dá carona também a créditos de curtíssimo prazo e a movimentos de cash-flow das transnacionais aqui estabelecidas. Nada contra. O capital produtivo é internado, para ficar, pelas mesmas empresas transnacionais no desenvolvimento de seus projetos e negócios da economia real. O retorno é parcial e homeopático. Ao contrário dos juros, a repatriação de lucros não constitui exigível com data marcada.

     Nos juros, a repatriação do empréstimo ocorre antes mesmo da conclusão do projeto ou da operação da empresa. Nos lucros, a remessa só ocorre se a empresa apurar ganhos na atividade econômica e se quiser repatriar alguma fração desses ganhos. Até porque, se o Brasil dá lucro nos mercados de bens e serviços operados por elas, o negócio é reaplicar todo o lucro aqui mesmo. A maioria delas tem feito isso.

     E mais: no capital produtivo de fora para dentro, junto com a poupança externa desembarcam a tecnologia, a gestão, o emprego, o salário, o tributo, a competição. O comparativo é acaciano, mas adequado para a leitura correta dos números que se seguem.

     No primeiro trimestre, entraram pelo capital produtivo exatos US$ 1,977 bilhão. Contra US$ 4,7 bilhões no mesmo período do ano passado. Um tombo de 57%. Com boa explicação ou justificativa na tremenda desvalorização do real de lá para cá. O dólar das múltis, no ponta a ponta, cresceu 43% em poder de compra no mercado interno.

     No mesmo cotejo, o ingresso do capital volátil passou de US$ 149 milhões no primeiro trimestre de 2002 para exatos US$ 1,965 bilhão aqui em 2003. Deu empate técnico com o capital produtivo.

   Além do efeito câmbio, a desaceleração estatística do investimento das transnacionais tem algo a ver, não com a 'queda da confiança das múltis no futuro da economia brasileira', mas com a digestão de sucuri da 'grande invasão' nos oito anos da Era FHC.

     De 1995 a 2002, elas trouxeram para cá nada menos de US$ 143 bilhões (a dólar de 2001). Entre os 10 maiores emergentes, o Brasil só perdeu em recepção, nesse longo período, para o pirotécnico advento da China, endereço de um terráqueo em cada cinco.

     O importante é que o capital produtivo vai continuar, aí pela proa, com ingresso acima de US$ 12 bilhões por ano. O resto é desinformação.

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